Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Diário de caminhada

"Pour les uns, qui voyagent, les étoiles sont des guides". - Le Petit Prince

Diário de caminhada

"Pour les uns, qui voyagent, les étoiles sont des guides". - Le Petit Prince

Março - O mês das florestas, da árvore e da poesia!

Avatar do autor Cátia Ribeiro, 03.04.25

No passado dia 21 de março celebrou-se o dia internacional das florestas, com a promoção de eventos e campanhas de sensibilização para a importância dos diferentes tipos de floresta no mundo sob o tema deste ano "Celebrar as florestas e os alimentos".

As florestas são essenciais para a nossa sobrevivência ao fornecer-nos alimentos, medicamentos e emprego, além de contribuírem para a manutenção de solos saudáveis e para a purificação do ar. No entanto, enfrentam constantemente ameaças, como, por exemplo, incêndios e secas, tornando-se urgente a adoção de medidas de proteção para contrariar esta tendência. Nesta data também se comemora o dia mundial da árvore, seguindo a mesma linha de necessidade de preservação com o incentivo de ações como a plantação de árvores para compensar a perda de área florestal e o fortalecimento da biodiversidade, além da organização de atividades de conservação e educação ambiental. 

Não deixa de ser uma infeliz coincidência que esta tenha sido também a data da divulgação da petição pública "Não ao abate dos jacarandás da Av. 5 de Outubro", devido à construção de um parque de estacionamento subterrâneo. A obra prevê a remoção de 47 jacarandás, sendo 22 destes transplantados e 25 abatidos por inviabilidade de transplante (esperemos que os replantados sobrevivam). Mais poluição a concentrar-se numa cidade já estrangulada pelo trânsito e com temperaturas desreguladas que um novo parque de estacionamento intensificará. Além da retirada deste ícone lilás azulado, que à cidade tanto associo, desconecta-se do nosso imaginário o seu acompanhamento na infância de várias gerações, pois estas árvores têm dezenas de anos. 

Este dia é também partilhado com o dia mundial da poesia, dada a relevância desta manifestação artística para a cultura e sociedade.

DSC_0072.jpeg

"Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina."

Excerto do poema "Paisagem" de Sophia de Mello Breyner Andresen.

[In Obra Poética I, Círculo de Leitores, 1992]

Segunda leitura de Louise Glück

Avatar do autor Cátia Ribeiro, 24.02.25

Quando comprei de uma assentada três livros de Louise Glück - pensei logo que aquele de capa escura iluminada pela lua ficaria reservado para uma leitura de inverno. 

Foi assim com o livro Noite Virtuosa e Fiel, segunda obra que li de Louise Glück, edição bilingue (tradução de Margarida Vale de Gato), da editora Relógio D'Água. Autora distinguida em 2020 com o Prémio Nobel da Literatura. 

IMG_20250224_150028.jpg

Escolhi lê-lo nesta altura do ano porque o termo "noite" lembra-me o inverno que associo à noite mais longa do ano, mas também a um estado de espírito introspetivo. À medida que ia lendo os poemas, encontrei o silêncio, a memória nostálgica da passagem do tempo apresentada de forma não necessariamente cronológica e o recolhimento e perceção de acontecimentos passados pelo ângulo de alguém que tem a sabedoria da não-envolvência. 

Tal como a imagem da noite, dilui-se a diferença entre a realidade e o sonho e até a ideia da inconsciência da própria morte.

"Não se esqueça de mim, gritei , quando finalmente o alcancei. 

Minha senhora, disse ele, apontando para os carris,

como há-de ver, com certeza, isto é o fim (...)" (p. 51)

 

"O fim ia e vinha.

Ou, diria antes, a espaços o fim aproximava-se (...)" (p. 99)

 

Ainda nesta temática de inverno, noite, lua... Tentei captar a primeira superlua do ano numa ode à noite - com neblina, como temos visto durante a noite e dia. 

DSC_0788.jpeg

DSC_0790.jpeg

DSC_0792.jpeg

Introdução a Louise Glück

Avatar do autor Cátia Ribeiro, 17.08.24

Este verão não vou sair (fisicamente) de Lisboa. 

Este ano não vou, como tem sido habitual, à costa alentejana à procura de um mar revolto para nadar e mergulhar. Também não vou viajar para o campo, para casa de uma amiga minha, por exemplo.

Este ano, Lisboa vai ser a minha cidade de férias com o mar à porta numa (aparente) calmaria e vou procurar o campo no acolhimento dos jardins urbanos. A revisão, seleção e publicação de fotos também me transportará para outros tempos e lugares e, como não podia deixar de ser, a leitura terá um papel fundamental. 

Pareceu-me, pois, a altura ideal para conhecer Louise Glück com Uma Vida de Aldeia, edição bilingue (tradução de Frederico Pedreira), da editora Relógio D'Água. Autora distinguida em 2020 com o Prémio Nobel da Literatura e citando a badana da capa deste livro: "pela sua inconfundível voz poética, que, com uma beleza austera, tornou universal a existência individual". 

IMG_20240816_203739~3.jpg

Revi esta citação enquanto lia o livro e já tenho em espera na estante mais uns quantos da autora: Averno, Noite Virtuosa e Fiel e A Íris Selvagem, este último vencedor de um Pulitzer. Um livro de poesia receber um Pulitzer urgiu-me à sua leitura, já que sempre fui sensível às motivações de atribuição deste prémio. 

Num aspeto gráfico, gostaria também de elogiar o design escolhido para ilustrar as capas dos livros, desde as cores sintéticas, aos elementos presentes que nos introduzem à temática de cada um, com estreita relação ao título. 

Em Uma Vida de Aldeia encontrei a descrição do quotidiano campestre (para onde procurei viajar), mas também estão bem demarcados os elementos da passagem do tempo, seja pela mudança das estações, seja no envelhecimento das gerações e até nas alterações dos próprios lugares. 

O foco no agora e a impermanência do que nos rodeia, bem como a tentativa de contrariar essa inevitabilidade. 

"Na janela, a Lua surge suspensa sobre a terra, 

insignificante, embora carregada de mensagens. 

Está morta, sempre esteve morta, 

mas finge ser outra coisa qualquer, 

ardendo como uma estrela (...)

Se há uma imagem da alma, creio que é esta." (pp. 153 e 155)

50 anos do 25 de Abril!

Avatar do autor Cátia Ribeiro, 25.04.24

Foi durante a minha demanda pela criação de um inventário fotográfico sobre arte urbana, que tive a sorte da minha tia me referir este mural. Andava a registar elementos marinhos pintados nas paredes junto às praias de Oeiras e Cascais, quando a minha tia me levou até este viaduto decorado com o 25 de Abril, de autoria de Nomen, junto à INATEL de Oeiras. Quando o fotografei em 2022, não me passou despercebido o x que alguém traçou por cima do cravo, ainda assim, a vivacidade do vermelho da flor e da mensagem de esperança conserva-se.

A7503226-56DA-4858-AE02-D192FDDBD751.jpeg

Não me lembro porque é que não registei o mural que fica do lado oposto, que alude ao MFA, mas provavelmente foi devido ao trânsito. Motivo para lá regressar! 

E porque a poesia está na rua, seguem-se 2 poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen: 

Noite de Abril

Hoje, noite de Abril, sem lua,
A minha rua
É outra rua.

Talvez por ser mais que nenhuma escura
E bailar o vento leste
A noite de hoje veste
As coisas conhecidas de aventura.

Uma rua nova destruiu a rua do costume.
Como se sempre nela houvesse este perfume
De vento leste e Primavera,
A sombra dos muros espera
Alguém que ela conhece.

E às vezes, o silêncio estremece
Como se fosse a hora de passar alguém
Que só hoje não vem.

[In "Obra Poética I", Círculo de Leitores, 1992]

Revolução

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

[In "Obra Poética II", Círculo de Leitores, 1992]