A propósito do dia da saúde mental
Cátia Ribeiro, 10.10.24
Segundo o site do SNS, hoje assinala-se o dia mundial da saúde mental, criado em 1992 pela Federação Mundial da Saúde Mental com o objetivo de dar a conhecer mais sobre o tema e combater o estigma associado.
Pesquisando sobre o assunto, fui direcionada para o site abaixo:
https://www.sns.gov.pt/noticias/2022/10/10/dia-mundial-da-saude-mental-10/
Considerando este dia, reli recentemente o livro Coisas de Loucos: O que eles deixaram no manicómio, de Catarina Gomes, publicado pela Tinta da China.

A primeira vez que li o livro sentia-se ainda de perto o impacto que a pandemia teve na saúde mental das pessoas, tendo até sido criada a linha de apoio psicológico do SNS 24, mantendo-se ativa até hoje.
O livro nasceu da descoberta acidental de uma caixa com pertences de antigos pacientes internados no hospital Miguel Bombarda, primeiro hospital psiquiátrico português, também conhecido como Hospital de Rilhafoles. A partir daqui, a autora iniciou uma pesquisa meticulosa para tentar "resgatar do esquecimento" os donos daqueles objetos. Desta forma, apresentou-nos as suas vidas, sonhos e o "gatilho" para a doença mental, que, lamentavelmente, não me parece assim tão improvável para qualquer um de nós.
Nas palavras da autora: "Podemos ir perdendo muitos chãos, à vez, ou então todos de repente. A doença mental pode medrar depois da perda de um emprego, de um divórcio, de uma viuvez, de um acidente, de uma doença grave." (p. 30)
Infelizmente, a prescrição dos psicofármacos tardaria a ser introduzida naquela época, sendo a única possibilidade de tratamento o confinamento asilar, utilização de coletes-de-forças, a leucotomia, lobotomia, eletrochoques (hoje chamada eletroconvulsivoterapia), entre outros.
Partindo do termo "leucotomia", não sabia que o procedimento tinha sido criado pelo médico Egas Moniz, valendo-lhe o Nobel da Medicina.
O termo mais popularizado "lobotomia" terá sido uma variação do procedimento anterior criado por Walter Freeman e praticado de forma mais arbitrária, sendo este o termo que mais bem conhecemos e associamos à crueldade da prática.
Graças a este livro, conheci sintomas que não sabia associados a determinadas doenças e como na época as doenças neurológicas e psiquiátricas se confundiam, tal como outros diagnósticos desfasados da realidade.
Aconselho vivamente a leitura deste livro. A escrita da autora aproxima-nos dos doentes, transportando-nos para a realidade e desafios que experienciaram, fazendo-nos sentir grande empatia por eles e tristeza pelos anos que perderam.